“Vai te confessar”, disse-lhe a Virgem Maria

“O retorno do filho pródigo” pintado por Rembrandt por volta de 1668

Na Alemanha, no início do século XVIII, um homem cometeu um pecado grave. A vergonha o impedia de se confessar, mas ele vivia atormentado pelo remorso e decidiu suicidar-se por afogamento. Mas quando chegou à beira da água, não mergulhou e, chorando, amargamente, implorou a Deus que o perdoasse, mesmo sem a confissão.

Durante várias noites seguidas, ele sentiu que alguém o tocava no ombro e ouviu: “Vai te confessar”, mas ele não ia. Sua vergonha continuava a impedi-lo. Então, finalmente, ele foi para a igreja, mas novamente não encontrou coragem para se confessar e, ao retornar à casa, teve a inspiração de rezar, pedindo a ajuda da Virgem Maria.

Ao se ajoelhar, sentiu que já não era a mesma pessoa. Retornou à igreja, pediu um confessor e declarou seus pecados com grande contrição. Ele declarou, então, que sentira mais alegria, durante aquela confissão, do que se tivesse ganho todo o ouro do mundo! (Trecho de Glórias de Maria, de Santo Afonso Ligório | D’après Le chapelet des enfants).

Veja os cinco passos para uma boa Confissão

Saibamos quais são os cinco passos necessários para fazer uma boa Confissão e receber as graças deste admirável sacramento da Misericórdia Divina.

O que é preciso saber sobre a Confissão?

— O Sacramento Confissão é um encontro maravilhoso com o Amor e a Misericórdia de Deus. É o único tribunal da face da Terra onde nos declaramos culpados e saímos inocentes, porque o Juiz e o Advogado são a mesma pessoa: o próprio Jesus[1].

— A Confissão foi instituída pelo próprio Jesus, quando confiou aos Apóstolos e aos seus sucessores o poder de perdoar pecados em seu nome: “Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhe-ão perdoados.” (cf. Jo 20, 23). Isso acontece porque o pecado rompe não somente a comunhão com Deus, mas também com a Igreja, na qual Cristo atua por meio dos que ordenou seus ministros (sacerdotes), na sucessão apostólica[2].

— O sacerdote é um instrumento de Deus. Por isso, o sacerdote também se confessa com outro sacerdote. Existe algo mais bonito que isso?

— O segredo da Confissão é absolutamente inviolável em qualquer situação[3], ou seja, o padre não pode, de forma alguma, revelar nada do que foi dito em Confissão sob pena de excomunhão latae sententiae (automática) reservada à Sé Apostólica[4];

— A Confissão é o meio que Jesus escolheu para o perdão dos pecados graves cometidos após o Batismo[5]. Se a Confissão for possível, não buscá-la é agir de forma contrária à graça de Deus, que deseja nos perdoar[6].

— O mandamento da Igreja é que o fiel com mais de sete anos confesse os pecados graves pelo menos uma vez ao ano[7]. Porém, é sumamente recomendável que se confesse com uma frequência maior, como por exemplo, uma vez por mês (para buscar o seu crescimento espiritual) ou se tiver caído em pecado grave – para retornar para a vida na graça[8].

Os cinco passos para uma boa Confissão

Os cinco passos necessários para fazer uma boa Confissão são os seguintes:

1) Exame de Consciência:

— Procurar lembrar de todos os pecados que necessita confessar[9], ou seja, os pecados graves;

— Pode-se inclusive fazer uma lista dos pecados, para facilitar e evitar o esquecimento;

— Não é necessário contar como aconteceu, mas apenas contar o pecado e quantas vezes o cometeu desde a última Confissão. Exemplo: faltei na Missa dominical uma vez.

2) Arrependimento:

— O arrependimento é a dor por ter ofendido Deus pelos pecados cometidos e o propósito de não mais cometê-los[10];

— Sem o arrependimento, a Confissão é inválida, pois não passa de um teatro. Exemplo: se alguém confessar já planejando cometer de novo o mesmo pecado, a Confissão é inválida;

— Pessoas deixam de confessar por pensarem: “Eu acho que cometerei o mesmo pecado, então não vou confessar.” Porém, a consciência do risco de cair novamente não impede de confessar. Havendo propósito de lutar contra o pecado, a Confissão é válida. Além disso, devemos confessar, pois a Confissão nos dará mais graças para não cair.

3) Declaração dos Pecados

— É necessário declarar todos os pecados graves que ainda não foram declarados em uma Confissão válida. É recomendável que os pecados veniais também sejam confessados, desde que haja o arrependimento e a intenção de não mais cometê-los, para receber sobre eles uma graça e o aconselhamento do sacerdote. Todavia, confessar pecados veniais não é estritamente necessário, já que são perdoados sem que sejam confessados. Ademais, o Ato Penitencial na Santa Missa também absolve os pecados veniais[11];

— Para que haja um pecado grave, são necessárias três condições: matéria grave, plena consciência e plena liberdade[12];

— Se algum pecado for esquecido, mesmo após um bom exame de consciência, o pecado foi perdoado na absolvição, mas deve ser declarado na Confissão seguinte;

— Se algum pecado grave for escondido de propósito, a Confissão foi inválida. Não é possível reconciliação pela metade.

4) Absolvição

— Após o ato de contrição (que poderá ser lido, decorado ou espontâneo), o Sacerdote dará a absolvição. Se os outros passos foram realizados corretamente, o fiel já se encontra em estado de graça.

5) Penitência

— A penitência é um bem para compensar o mal cometido pelo pecado. O fiel completará o processo de reconciliação cumprindo a penitência da Confissão, geralmente alguma oração simples ou uma boa obra[13].

Autor: Padre Francisco Amaral, sacerdote da Arquidiocese de Cuiabá-MT e vigário da Paróquia Santo Antônio de Várzea Grande.


Links relacionados:

ACI DIGITAL. Exame de consciência.

CLÉOFAS. O inviolável segredo da confissão
PADRE PAULO RICARDO. As três obras quaresmais.
PADRE PAULO RICARDO. A última Confissão

Referências:


[1]  Cf. PAPA JOÃO PAULO II. Catecismo da Igreja Católica, 1441-1442.
[2]  Idem, 1443-1445; 1485.}
[3]  Idem, 1467.
[4]  PAPA JOÃO PAULO II. Código de Direito Canônico, cânon 1388 § 1.
[5]  Cf. PAPA JOÃO PAULO II. Catecismo da Igreja Católica, 1446.
[6]  Idem, 1484; 1493.
[7]  PAPA JOÃO PAULO II. Código de Direito Canônico, cânon 989.
[8]  Cf. PAPA JOÃO PAULO II. Catecismo da Igreja Católica, 1457.
[9]  Idem, 1454.
[10] Idem, 1451-1453.
[11] Idem, 1456.
[12] Idem, 1857.
[13] Idem, 1460.
 

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