Rotina

Depois de uma longa semana de trabalho, afazeres domésticos e pensamentos à mil, ela desabafa:

– Estou cansada de trabalhar e ver todos os dias as mesmas pessoas no caminho; passar horas trabalhando. Chego em casa e meu marido sempre do mesmo jeito, com a mesma disposição, a mesma comida para o jantar. Entro no banho e logo ele começa a reclamar. Quero descansar e assistir minha novela, mas meus filhos não me deixam, porque querem brincar comigo e conversar.

Não entendem que estou cansada. Meus pais também me irritam algumas vezes e entre trabalho, marido, filhos, pais e cuidar da casa, eles me deixam louca.

Quero Paz! A única coisa boa é dormir. Ao fechar os olhos sinto um grande alívio, me esqueço de tudo e de todos.

Ao dormir, ela ouviu:

– Olá, vim te ajudar.

– Quem é você? Como entrou?

– Sou um servo de Deus. Ele disse que ouviu suas queixas e que você tem razão.

– Isso não é possível, para isso eu teria que estar…

O anjo respondeu:

– Isso, você está. Não se preocupará mais em ver sempre as mesmas pessoas, nem por aguentar o seu marido com suas reclamações e sua disposição, nem seus filhos que te irritam, nem terá que escutar os conselhos de seus pais e não terá mais qualquer casa para cuidar.

– Mas… Que acontecerá com todos? Com meu trabalho? Minha casa ?

– Não se preocupe. No seu trabalho já contrataram outra pessoa para o seu lugar e ela certamente está muito feliz porque estava sem trabalho.

– E meu marido, meus filhos?

– Ao seu marido foi dado uma boa mulher que o quer bem, o respeita e o admira por suas qualidades, aceita seus gostos e defeitos e todas as suas reclamações. Além disso, ela se preocupa com seus filhos como se fossem filhos dela. De certo, tem uma emoção muito grande já que é estéril. Por mais cansada que chegue do trabalho, dedica tempo a brincar com eles e para agradar seu marido. Todos estão muito felizes.

– Mas não quero isso!

– Sinto muito, a decisão foi tomada – disse o anjo.

– Mas isso significa que jamais voltarei a beijar o rostinho dos meus filhos, nem dizer eu te amo ao meu marido e mostrar a eles o quanto são importantes na minha vida, nem dar um abraço nos meus pais? Não, não quero morrer, quero viver, envelhecer junto ao meu marido, fazer a viagem que há muito planejamos, colocar aquela roupa que comprei há mais de 1 ano, levar meus filhos ao passeio que sempre prometi. Não quero morrer ainda…

– Mas era o que você queria… Descansar.

Agora já tens seu descanso eterno, durma para sempre.

– Não, não quero, por favor, Deus!

– … Que aconteceu amor? Teve um pesadelo? – Disse meu marido a acordando com paciência e carinhosamente.

– Sim, um pesadelo horrível.

Parei a frase ao meio, olhei em seu rosto, seu semblante preocupado comigo, ali do meu lado, e então, sorrindo falei:

– Não meu amor… não tive pesadelo nenhum, tive um encontro com Deus, que nos adora, e que acaba de me dar uma nova oportunidade.

***

Já estamos no mês de julho, mês de férias, porém, para chegarmos até aqui a rotina parece tomar conta da vida da gente. Todos os dias é a mesma coisa, acordamos na mesma hora, saímos apressados para o trabalho, para reuniões e mais reuniões, e a rotina vai tomando conta do nosso dia a dia. Contudo, coisas novas também acontecem a todo o momento, mas será que percebemos? Estamos nos deixando levar pela rotina e, infelizmente, estamos perdendo algo maravilhoso que temos: a sensibilidade, esse dom que vem de Deus!

Não percebemos, por exemplo, aquele telefonema que fez toda a diferença naquela situação, o sorriso de um colega de trabalho desejando ‘‘bom dia’’ ou até mesmo quando chegamos ao trabalho e encontramos a sala com cheiro de limpeza, sinalizando que alguém já esteve ali preparando o nosso ambiente.Vivemos na era do imediatismo, na qual tudo é automático e rápido demais. Precisamos parar e olhar à nossa volta. Em cada acontecimento, Deus se revela a nós. Nenhum dia é igual ao outro, portanto, não nos deixemos cair na rotina nem nos tornemos pessoas insensíveis, incapazes de reconhecer no outro a beleza que vem Deus!

A vida oculta de Jesus

São muitas as teorias acerca da vida oculta de Jesus, no período compreendido entre os doze anos e o início de sua vida pública, aos trinta. Não há nada na Bíblia que sinalize o modo como Ele viveu aqueles anos, por isso, muito se especula até hoje sobre eles.

Por trás destas teorias está o compreensível escândalo de Nazaré. Assim diz o Evangelho: “De Nazaré pode sair algo de bom?” (Jo 1,46). Existem duas desproporções possíveis: quando se tem fé e quando não. Se não se tem fé e não se crê que Jesus é Deus que se fez homem, mas tão somente um grande profeta, um sábio, um iluminado, um grande líder religioso da humanidade, instala-se a desproporção de causa e efeito, pois Nazaré, sendo um vila muito pequena e humilde, não poderia ter dado ao mundo tão grande e importante sábio. Jesus teria que ter aprendido ou adquirido a sua grande sabedoria em outro lugar que não Nazaré.

Quando se tem fé e realmente se acredita que Jesus é Deus não há o problema da causa e efeito. A sua sabedoria ele a trouxe do Alto. O escândalo se torna o desperdício, pois Jesus sendo quem é – o Salvador – parece ter despediçado anos de sua vida fazendo cadeiras, mesas, portas, trabalhando numa carpintaria, sem nada dizer, enquanto o mundo todo precisava ser salvo.

Contudo, neste escândalo existe uma grande luz. São Josemaría Escrivá, fundador do Opus Dei, na homilia pronunciada no dia 24 de dezembro de 1963, publicada no livro “Cristo que passa”, diz:

“por muito que tenhamos pensado nessas verdades devemos encher-nos sempre de admiração ao pensar nos trinta anos de obscuridade que constituem a passagem da maior parte da vida de Jesus entre seus irmãos, os homens. Anos de sombra, mas para nós, claros como a luz do sol, resplendor que ilumina o nosso dia e lhes dá uma autêntica projeção, pois somos cristãos correntes com uma vida vulgar igual a tantos milhões de pessoas nos mais diversos lugares do mundo.”

O Santo está dizendo que, ao viver a vida ordinária, comum, do dia a dia, Jesus iluminou a vida de milhões de pessoas. Que Deus, o Criador do Universo, das galáxias, dos anjos, o Sábio dos sábios, o Onipotente, a Luz da luz, tenha se transformado numa pequena vela, bruxuleando na noite de uma pequena vila no interior da Palestina, na periferia do mundo, pode sim soar como um grande escândalo, mas para muitos é um grande farol que ilumina e significa que a vida desses milhões de pessoas tem dignidade.

A vida ordinária, de trabalho, de luta é fonte de grande santificação para todos os homens porque Deus viveu essa mesma vida. O Papa Paulo VI, em Nazaré, no dia 05 de janeiro de 1964, pronunciou um importante discurso até hoje recordado pela Igreja. Nele, o Papa recorda as três lições de Nazaré: silêncio, vida familiar e trabalho.

A Palavra de Deus se fez carne e silenciosamente viveu em Nazaré. Saber ouvir, viver como aquele que escuta Deus. Jesus é a Palavra de Deus, mas viveu anos em Nazaré escutando as coisas de seu Pai.

A vida familiar foi infinitamente dignificada quando Jesus viveu com sua mãe, Maria e o seu pai adotivo, José, na obediência e submissão, que mais tarde seriam repetidas de forma extraordinária no Horto das Oliveiras e na Cruz.

Finalmente, o trabalho, que não é meramente um castigo do pecado, como bem intuiu São Josemaría Escrivá ao ler o livro do Gênesis, pois, mesmo antes do pecado original, Deus havia colocado o homem no paraíso para cultivar o jardim. Portanto, o trabalho estava inserido no projeto divino para o homem. O homem como co-criador, como participante da criação divina.

Com todas essas lições ensinadas por Jesus, o silêncio de Nazaré se torna eloquente, muito mais que um discurso: se torna vida que dá vida ao homem. Portanto, não há que se preocupar em tentar explicar ou entender o mistério da vida oculta de Jesus, do suposto desperdício, Ele não se desperdiçou em sua vida em Nazaré, assim como cada homem ao longo do tempo não desperdiça a própria vida vivendo a fidelidade a Deus no dia a dia, em sua vida ordinária, no seu trabalho, na sua Nazaré.

Fonte: Adaptação com artigo de Padre Paulo Ricardo.

O “Momento de Reflexão” você ouve de Segunda a Sexta-feira às 18:00hrs no programa Vozes da Paz pela rádio São José FM em 96,9, Deus abençoe.

 

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